Pesquisa Datafolha aponta que 71% dos brasileiros defendem o fim da escala 6×1, modelo de trabalho com apenas um dia de descanso semanal. A demanda popular contrasta com projeções de entidades empresariais que preveem aumento de custos e impacto no emprego formal caso a medida seja implementada sem compensações.
O desejo pela redução da jornada de trabalho é crescente no Brasil. Uma pesquisa recente do instituto Datafolha revelou que 71% dos entrevistados apoiam o fim da escala 6×1, onde o empregado trabalha seis dias e descansa apenas um. Este apoio representa um aumento em relação a pesquisas anteriores, indicando uma tendência clara na percepção pública sobre as condições de trabalho.
Apesar do amplo respaldo popular, a viabilidade econômica da mudança gera preocupações. Estudos de entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Fecomércio apontam para um cenário de aumento significativo nos custos para as empresas, o que poderia se refletir em repasses para os preços e em uma potencial retração na geração de empregos formais.
As projeções indicam que a adequação a jornadas mais curtas, sem a devida compensação de produtividade ou salarial, pode encarecer consideravelmente a folha de pagamento. Setores como comércio, serviços e indústria, que frequentemente operam em escalas contínuas, seriam os mais afetados, necessitando de mais contratações para manter o mesmo nível de operação, elevando os custos operacionais. A origem destas informações é a pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste domingo (15).
Apoio popular em alta, mas com ressalvas econômicas
A pesquisa do Datafolha, que ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios entre 3 e 5 de março, com margem de erro de dois pontos percentuais, mostra que apenas 27% dos brasileiros são contrários ao fim da escala 6×1, e 3% não opinaram. O apoio à mudança, considerado por alguns como uma medida populista em ano eleitoral, cresceu em relação a levantamentos anteriores.
No entanto, a percepção sobre os impactos econômicos não é unânime entre os entrevistados. Enquanto 39% acreditam que o fim da escala 6×1 traria consequências positivas para as empresas, o mesmo percentual avalia que os efeitos seriam negativos para os negócios, evidenciando a complexidade do debate.
Estudos projetam altos custos e pressão sobre preços
Estudos setoriais lançam luz sobre os potenciais efeitos adversos da medida. Uma análise da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada poderia elevar os custos anuais das empresas com trabalhadores formais entre R$ 178 bilhões e R$ 267 bilhões, representando um aumento de até 7% na folha de pagamentos. A entidade alerta para os riscos à competitividade e à geração de empregos.
A Fecomércio, por sua vez, aponta que a redução da jornada sem ganho proporcional de produtividade pode elevar os custos operacionais em até 22%. Isso poderia levar à retração de contratações e ao repasse de preços aos consumidores, visto que as empresas precisariam contratar mais pessoal para manter o volume de trabalho.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) corrobora essa visão, prevendo aumento nas despesas trabalhistas, impacto sobre os preços e redução do emprego formal, especialmente em pequenas e médias empresas. Segundo a CNC, cerca de 31,5 milhões de empregos formais seriam diretamente impactados, com o varejo e o atacado respondendo pela maior parte dos trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais. A adequação à nova jornada poderia custar R$ 122,4 bilhões ao comércio e R$ 235 bilhões ao setor de serviços anualmente, com um repasse ao consumidor que poderia chegar a 13%.
O futuro da jornada de trabalho e seus desafios
O debate em torno da escala 6×1 reflete um dilema entre o anseio popular por melhores condições de trabalho e as realidades econômicas que moldam o mercado. A implementação de mudanças significativas na jornada de trabalho, sem um planejamento cuidadoso que contemple a produtividade e a sustentabilidade financeira das empresas, pode acarretar consequências indesejadas para a economia como um todo. A busca por um equilíbrio que atenda tanto aos trabalhadores quanto ao setor produtivo é o grande desafio para os próximos anos.



