Medicamentos injetáveis para emagrecimento e diabetes causam reviravolta no mercado de açúcar, com queda de preços e mudanças nos hábitos de consumo.
A crescente popularidade de medicamentos injetáveis como Ozempic e Mounjaro, indicados para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, está gerando um impacto global inesperado no mercado de açúcar. Essa classe de fármacos, conhecida como GLP-1, induz uma sensação de saciedade após as refeições, levando a uma redução significativa no consumo da commodity e, consequentemente, derrubando seus preços.
Recentemente, o valor do açúcar no mercado futuro atingiu seu menor patamar em cinco anos, com contratos futuros de Sugar No. 11 caindo abaixo de US$ 0,14 por libra. Em um ano, a desvalorização acumulada chega a 29%. Tradings de commodities e até mesmo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já apontam os medicamentos GLP-1 como um fator de risco para o mercado açucareiro, citando a redução no consumo de alimentos e bebidas impulsionada pelas mudanças nos hábitos alimentares.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima um crescimento modesto de 1,4% no consumo mundial de açúcar, o que deve levar a um aumento de 5% nos estoques globais, totalizando 44,4 milhões de toneladas. Essa projeção reforça a pressão de baixa sobre os preços da commodity, um cenário que afeta diretamente o Brasil, o maior exportador mundial de açúcar, responsável por cerca de 23% da produção global.
Impacto no Mercado Brasileiro e Projeções Futuras
No mercado doméstico brasileiro, o preço da saca de 50 kg de açúcar cristal branco em São Paulo registrou o menor valor nominal desde outubro de 2020, com uma queda de 39% no início de 2025. A tendência de queda, que começou nos Estados Unidos, já se espalha por outros países, como o México e a Europa, onde se observa um aumento nos estoques de açúcar devido à menor procura por produtos açucarados e ultraprocessados.
Relatórios de instituições financeiras como Morgan Stanley e Goldman Sachs projetam um uso cada vez maior desses medicamentos. O Morgan Stanley estima que 9% da população americana utilizará esses medicamentos até 2035, o que forçará empresas alimentícias a adaptarem seus produtos. O Goldman Sachs prevê que 30 milhões de americanos estarão em tratamento com GLP-1 até 2030, o que, apesar de poder reduzir custos de saúde relacionados à obesidade, representa um desafio para empresas que dependem de produtos ricos em açúcar.
O tema foi debatido na Dubai Sugar Conference, onde o consenso apontou o uso de medicamentos para perda de peso, somado a impostos sobre bebidas açucaradas e crescente preocupação com a saúde, como responsáveis pela queda no consumo de açúcar no Ocidente. A futura quebra da patente da semaglutida, molécula presente em alguns desses medicamentos, prevista para março no Brasil e ainda este ano em outros mercados, deve acelerar a popularização.
Mudanças no Varejo e Flexibilidade do Setor Sucroalcooleiro
No Brasil, os efeitos dos medicamentos GLP-1 já são sentidos no varejo. O CEO do Assaí Atacadista observou que o aumento da saciedade leva a um menor consumo de alimentos e a uma maior busca por itens saudáveis e proteicos. Para mitigar os impactos da queda nos preços do açúcar, as usinas brasileiras possuem a flexibilidade de direcionar a safra para a produção de etanol, reduzindo a oferta de açúcar. No entanto, essa mudança pode levar a uma queda no preço do etanol devido ao aumento de seu volume de produção.
A tendência de redução do consumo de açúcar, impulsionada pelos medicamentos GLP-1, representa um novo desafio para o setor sucroalcooleiro, que já enfrenta outros obstáculos como custos operacionais elevados e adversidades climáticas. A adaptação a essa nova realidade de mercado será crucial para a sustentabilidade do setor no longo prazo.



