Guerreiras do K-Pop: Entenda por que a animação ‘travada’ conquista o público e o cérebro

O estilo de animação de ‘Guerreiras do K-Pop’ que parece ‘bugado’ e agrada o cérebro O aclamado filme de animação “Guerreiras do K‑Pop”, indicado ao Oscar, surpreende pela sua estética de movimentos menos fluidos, quase como se estivessem em stop‑motion. Essa característica, que pode parecer um defeito, é, na verdade, uma escolha artística deliberada que […]

O estilo de animação de ‘Guerreiras do K-Pop’ que parece ‘bugado’ e agrada o cérebro

O aclamado filme de animação “Guerreiras do K‑Pop”, indicado ao Oscar, surpreende pela sua estética de movimentos menos fluidos, quase como se estivessem em stop‑motion. Essa característica, que pode parecer um defeito, é, na verdade, uma escolha artística deliberada que explora a forma como nosso cérebro processa o movimento.

A técnica utilizada, conhecida como “animar em dois”, consiste na repetição de quadros, criando rupturas rítmicas que desafiam a percepção visual. Essa abordagem, combinada com a animação 3D, traz uma novidade que tem cativado o público e gerado discussões entre especialistas. Conforme informações divulgadas pelo g1.

O artista animador Marcelo Zanin, com vasta experiência em produções como “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”, explica que animar em dois não é uma técnica nova, mas sua aplicação na animação 3D moderna é inovadora. Ele revela que até mesmo a equipe de produção, inicialmente, estranhou o estilo.

A história e a ciência por trás da ‘crocância visual’

A animação “em dois” remonta ao início da animação tradicional, onde a repetição de quadros de dois em dois (criando 12 desenhos por segundo em vez de 24) era uma solução para reduzir custos e complexidade técnica, sem impactar significativamente a percepção do público. Essa técnica vai na contramão da busca por fluidez e realismo que marcou a evolução da animação 3D desde “Toy Story”.

“A indústria busca estilos diferentes. A animação tradicional foi o que mais me inspirou. Daí veio o 3D com ‘Toy Story’ e foi se estabelecendo. […] E aí agora a gente está nessa de novo, vai vir outra coisa. Então tem essas oscilações de demanda em que as pessoas tentam buscar o que essas crianças vão assistir”, contextualiza Zanin.

Do ponto de vista neurológico, essa técnica ativa um mecanismo de “coding perceptual”, onde o cérebro é estimulado a preencher as lacunas entre os quadros. O neurologista João Brainer, da Associação Brasileira de Neurologia, compara esse processo ao que ocorre com o cérebro de usuários de TikTok, onde a constante necessidade de interpretação de estímulos rápidos gera excitação e áreas de prazer.

“Você cria essa fragmentação e, para você decodificar o que é o restante dessa fragmentação, você precisa de atenção”, explica Brainer. “É como se, a cada momento que os frames aparecem, o seu cérebro estivesse sendo chamado à atenção. É como se alguém estivesse puxando você.” Essa constante demanda por atenção gera uma sensação de expectativa e uma “ansiedade positiva” que se resolve rapidamente, sem gerar sofrimento.

Um fenômeno cultural e uma escolha estética ousada

“Guerreiras do K-Pop” se tornou um fenômeno cultural por sua mistura de estética vibrante, coreografias complexas e respeito ao folclore asiático, além de uma trilha sonora que viralizou. A escolha de utilizar a animação “em dois” contribui para essa identidade única, oferecendo uma experiência visual que, embora não convencional, é recompensadora para o espectador.

Essa técnica, segundo Brainer, ativa áreas dopaminérgicas responsáveis pelo prazer, criando um ciclo de recompensa que incentiva a vontade de assistir novamente, mas sem o potencial viciante de outras formas de estímulo. A “crocância visual” do filme, portanto, é uma combinação de arte e ciência neurológica que resultou em um sucesso inesperado e aclamado.

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