Guerra no Oriente Médio impulsiona cotações do petróleo e beneficia financeiramente a Rússia, enquanto desvia atenção militar dos EUA da Ucrânia.
A escalada da guerra no Oriente Médio e a consequente alta no preço do petróleo no mercado internacional emergem como um inesperado trunfo estratégico para a Rússia. O aumento do valor do barril de petróleo não apenas injeta recursos financeiros na máquina de guerra russa, impulsionando a invasão na Ucrânia, mas também direciona o foco militar dos Estados Unidos para longe do conflito no leste europeu.
A Rússia, segundo maior exportador de petróleo do mundo, apesar das sanções ocidentais, tem visto um alívio temporário em seu setor energético. A recente elevação do preço do barril para cerca de US$ 100 levou os Estados Unidos a concederem licenças temporárias que suspendem sanções sobre petróleo russo já embarcado, além de isenções anteriores para refinarias indianas.
Em meio a essas movimentações, o presidente russo Vladimir Putin tem incentivado empresas de energia a “aproveitarem o momento atual”, sugerindo que a União Europeia poderia reconsiderar seus planos de longo prazo para reduzir a dependência energética russa. A situação atual, conforme análises de especialistas, cria um cenário complexo onde a Rússia pode encontrar fôlego financeiro adicional para sustentar a guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo que a atenção global se fragmenta.
Novos recursos para financiar a prolongada invasão na Ucrânia
A Rússia tem enfrentado dificuldades econômicas para manter o ritmo de sua ofensiva na Ucrânia, em grande parte devido às sanções ocidentais. O custo da guerra tem impactado diretamente os cidadãos russos, com o aumento de preços de produtos básicos. O Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2025 registrou um crescimento modesto de 0,5%, o pior desempenho desde o início do conflito em 2022, com projeções do FMI indicando uma alta de apenas 0,8% para o ano corrente.
Eduardo Galvão, especialista em risco político, ressalta que a Rússia financia boa parte de sua máquina de guerra com receitas de petróleo e gás, que representam uma parcela significativa do orçamento federal. “Cada dólar adicional no barril melhora a capacidade de Moscou de sustentar o esforço militar na Ucrânia”, alerta Galvão.
A duração do conflito no Oriente Médio será crucial para determinar o grau de benefício financeiro para a Rússia. Se a crise no abastecimento global de petróleo for de curta duração, o impacto pode ser mínimo. Contudo, se o conflito se prolongar por meses, a economia russa poderá colher frutos mais duradouros. Galvão pondera que esses alívios temporários e conflitos simultâneos redistribuem custos e prioridades internacionais, permitindo que a Rússia “respire um pouco mais” em uma guerra que é, fundamentalmente, uma disputa de resistência econômica e industrial.
Desafios para Putin e a complexa rede de alianças
Apesar das potenciais vantagens, o conflito no Irã também apresenta desvantagens para Putin. Adriano Gianturco, coordenador de Relações Internacionais do Ibmec BH, destaca a proximidade do Irã com a China, um parceiro econômico crucial para Moscou. Um eventual enfraquecimento do Irã poderia impactar negativamente a desaceleração econômica de Pequim.
Gianturco também aponta para a aliança estratégica Irã-Rússia no fornecimento de drones Shahed. Uma guerra regional pode levar o Irã a utilizar esses recursos em seu próprio território, comprometendo o suprimento para a Rússia e auxiliando na invasão da Ucrânia. A preocupação se estende aos estoques de armas ocidentais, que já eram um ponto de atenção para a Ucrânia antes do conflito no Irã e agora podem ter seu esgotamento acelerado, especialmente munições de precisão como os interceptores Patriot.
Enquanto a Rússia mantém sua campanha na Ucrânia, o governo ucraniano tem colaborado com os EUA no Oriente Médio, enviando drones interceptadores e especialistas para auxiliar na defesa contra equipamentos iranianos. Essa cooperação visa fortalecer a posição da Ucrânia nas negociações de paz paralisadas. No entanto, a dinâmica política, com o presidente Donald Trump demonstrando abertura para negociações com Putin, adiciona uma camada de imprevisibilidade ao cenário.
Perspectivas futuras e a instabilidade energética global
A Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou a recomendação de liberação de 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas para conter a instabilidade do mercado, a maior liberação da história. Os países do G7 apoiam medidas proativas para lidar com a situação, visando enviar uma mensagem clara de que as reservas estratégicas serão utilizadas caso o Estreito de Ormuz seja fechado.
Apesar da potencial vantagem de financiamento de guerra, há um lado negativo para a Rússia no conflito iraniano: o possível enfraquecimento de longo prazo da cooperação militar entre os dois países. Um Irã enfraquecido ou desestabilizado poderia reduzir a produção de drones e tecnologia de mísseis, impactando a parceria de defesa. Embora isso possa ser estrategicamente relevante no longo prazo, não resolve a crise imediata da Ucrânia em termos de atenção, recursos e diplomacia.



