Crise no Oriente Médio Provoca Alta no Diesel e Impacta Colheitas Essenciais no Brasil
A escalada da tensão no Oriente Médio e o consequente disparo nos preços internacionais do petróleo já causam reflexos diretos no agronegócio brasileiro. Produtores rurais de diversas regiões do país relatam, desde a semana passada, um aumento abrupto no preço do diesel e dificuldades crescentes para abastecer máquinas agrícolas, justamente no período crucial da colheita de arroz, concentrada no Sul, e da soja, que abrange todo o território nacional.
A situação gera apreensão em um setor vital para a economia brasileira, que depende intensamente do diesel para a operação de tratores, colheitadeiras e para o escoamento da produção. Enquanto entidades do setor apontam para cortes no fornecimento por parte da Petrobras e especulação de mercado, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e a própria estatal de petróleo negam interrupções generalizadas no abastecimento.
O cenário de instabilidade global, com o fechamento do Estreito de Ormuz e a alta expressiva do barril Brent, que já acumula valorização superior a 30% desde o fim de fevereiro, adiciona uma camada de incerteza. Em meio a este contexto, o setor produtivo e a agroindústria buscam soluções, como o aumento da mistura de biodiesel no diesel, para garantir a segurança energética e a estabilidade de preços no país.
Produtores Relatam Falta e Preços Elevados, ANP Aponta Normalidade
Desde o início de abril, produtores de arroz no Rio Grande do Sul, por exemplo, têm enfrentado dificuldades para receber o diesel através dos Transportadores Revendedores-Retalhistas (TRRs). A Federação da Agricultura do Estado (Farsul) chegou a notificar o governo estadual e órgãos federais após a paralisação total do carregamento de combustível por TRRs. Contudo, a ANP, em nota oficial, afirmou ter apurado com os principais fornecedores da região que o estado dispõe de estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular.
A divergência de informações persiste. O diretor-geral da ANP, Artur Watt, reiterou a posição do órgão, afirmando não visualizar falta física de produtos no momento e que Petrobras e outros grandes produtores mantêm estoques e entregas regulares. No entanto, o presidente da Farsul mantém a preocupação e a vigilância para a normalização do suprimento.
A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) corrobora os relatos de produtores, mencionando aumentos expressivos no preço do combustível e cancelamentos de vendas ou alegações de ausência de estoque por parte dos comerciantes de diesel.
Cortes no Fornecimento e Medidas do Governo em Debate
Carlos Eduardo Hammerschmidt, representante do setor de distribuição de diesel, apontou que a Petrobras teria reduzido em até 30% o volume de óleo diesel previsto para entrega a distribuidoras em Araucária (PR) no mês de abril, com uma média de corte de 23% para outras regiões do Brasil. A Petrobras, por sua vez, nega mudanças nas entregas de suas refinarias até o momento.
Em resposta à crise de preços, o presidente Lula anunciou a isenção de PIS e Cofins, além de uma subvenção para importação e produção de diesel, visando mitigar os impactos do conflito no Oriente Médio. Hammerschmidt, contudo, avalia que tais medidas são mais políticas e voltadas à redução do preço para o consumidor, sem garantir o aumento da oferta de produto no mercado.
Impacto se Estende a Outros Estados e Setores
A dificuldade de abastecimento e a alta no preço do diesel também afetam produtores no Paraná, Goiás, Rondônia e Mato Grosso. No Paraná, relatos de falta de diesel em entrepostos já chegaram a sindicatos rurais, evidenciando a pressão sobre os custos e as dificuldades operacionais. Em Goiás, o preço do litro do combustível chegou a ser vendido por R$ 8,70, um aumento significativo em relação ao valor médio de R$ 5,94 registrado no início de março.
A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) alerta que a ameaça de interrupção no fornecimento de diesel coloca em risco a produtividade do campo e a segurança alimentar do país. Em Mato Grosso, principal estado produtor de soja, a alta no diesel agrava um cenário já delicado, marcado por altos custos, escassez de crédito e margens reduzidas, com o impacto se espalhando para toda a economia e chegando ao consumidor final.
Entidades do Agro Pressionam por Aumento da Mistura de Biodiesel
Diante do cenário de instabilidade, 43 entidades do agronegócio e da agroindústria apresentaram uma carta aberta ao governo federal solicitando a elevação imediata da mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 15% (B15) para 17% (B17). A proposta visa reduzir a dependência brasileira da importação de diesel e fortalecer a segurança energética do país, aproveitando o potencial produtivo do próprio setor agropecuário na geração de biocombustíveis.
A medida é vista como uma forma de mitigar os riscos de desabastecimento e a volatilidade de preços em um contexto internacional complexo. A iniciativa busca, ainda, fortalecer a autossuficiência energética do Brasil, utilizando a biomassa nacional para a produção de combustíveis.



