China e Rússia: O que está em jogo na guerra do Oriente Médio e os limites da parceria com o Irã

China e Rússia condenam ataques ao Irã, mas evitam apoio militar direto, revelando limites da parceria estratégica em meio à tensão no Oriente Médio.

Guerra no Oriente Médio: Interesses e Limites da Parceria Estratégica entre China, Rússia e Irã

Horas após os ataques atribuídos aos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a Rússia e a China condenaram a ofensiva, clamando por um cessar-fogo e a retomada do diálogo diplomático. Contudo, ambas as potências asiáticas optaram por evitar qualquer sinalização de apoio militar direto a Teerã, expondo as limitações práticas da parceria que mantêm com o regime iraniano.

No Conselho de Segurança da ONU, a Rússia classificou os bombardeios como “atos de agressão”. O chanceler chinês, Wang Yi, por sua vez, considerou “inaceitável” o ataque americano em meio a negociações diplomáticas e, mais ainda, o assassinato de “líder de um país soberano”, referindo-se à morte do aiatolá Ali Khamenei. As declarações, no entanto, permaneceram estritamente no campo diplomático, sem tom ameaçador.

Acordos Estratégicos e Vínculos Econômicos sob Tensão

China e Rússia firmaram acordos estratégicos com o Irã, ampliando a cooperação política, econômica e militar. Em janeiro deste ano, anunciaram um “pacto trilateral” para fortalecer a coordenação diplomática e aproximar-se em temas como energia, comércio e defesa. No entanto, o acordo não inclui cláusulas de defesa mútua nem obriga intervenção militar em caso de ataque externo.

O Irã tem sido um importante aliado de Moscou na invasão da Ucrânia, fornecendo centenas de drones desde 2022. Essa cooperação militar auxiliou a Rússia a mitigar os efeitos das sanções ocidentais e consolidou a aproximação estratégica entre os dois regimes. Para a China, o vínculo é predominantemente econômico e energético, sendo o Irã seu maior comprador de petróleo, absorvendo mais de 80% das exportações iranianas. Essas compras, frequentemente abaixo do preço internacional, garantem vantagem financeira a Pequim e receita vital para Teerã.

Riscos Geopolíticos e Foco em Prioridades Nacionais

A instabilidade no Oriente Médio também afeta corredores comerciais estratégicos de interesse para Moscou e Pequim, além de ameaçar investimentos chineses em países do Golfo, cruciais para a Iniciativa Cinturão e Rota. Uma eventual queda do regime iraniano representaria perdas estratégicas relevantes para China e Rússia, embora de naturezas distintas. Contudo, analistas avaliam que nenhum dos dois regimes tem interesse em se envolver diretamente no conflito.

A professora de Relações Internacionais, Ludmila Culpi, considera improvável que potências globais como China e Rússia assumam os custos de um envolvimento direto contra os EUA. Para a China, a prioridade militar estratégica permanece concentrada em Taiwan e no Leste Asiático. Abrir uma frente indireta no Oriente Médio para defender o Irã significaria desviar recursos e elevar o risco de confronto direto com os Estados Unidos, comprometendo sua principal agenda estratégica.

O Kremlin, por sua vez, ainda enfrenta desafios na Ucrânia. Analistas do think tank Chatham House avaliam que Moscou dificilmente abrirá uma nova frente de tensão direta com os Estados Unidos enquanto concentra recursos no conflito europeu. O analista Grégoire Roos, do Chatham House, afirma que a Rússia não pretende se envolver militarmente nem oferecer apoio concreto a Teerã, buscando preservar sua credibilidade sem ser arrastada para um segundo conflito de alta intensidade.

Benefícios Econômicos Pontuais para a Rússia

A instabilidade no Oriente Médio pode gerar efeitos econômicos positivos para a Rússia no curto prazo, com a pressão sobre os preços internacionais do petróleo, principal fonte de receita externa do país. Uma alta sustentada da commodity favorece exportadores como a Rússia, que depende dessas receitas para financiar seu orçamento militar e a guerra na Ucrânia. A Rússia tem expandido suas exportações de petróleo para países que não aderiram integralmente às sanções ocidentais, como China, Brasil e Índia, muitas vezes oferecendo descontos.

Apesar disso, as sanções ocidentais buscam dificultar esse financiamento, com propostas de tarifas secundárias sobre bens importados de países que continuam o comércio energético com Moscou. Tais medidas poderiam impactar severamente parceiros comerciais da Rússia, como o Brasil, que é um importante comprador de diesel russo.

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