Safra Recorde de Café Não Garante Preços Baixos ao Consumidor; Entenda os Motivos

Safra recorde de café estimada pela Conab não deve reduzir preços no curto prazo, pressionados por clima e estoques globais baixos.

Produção Histórica de Café: Um Alívio Temporário para o Mercado, Mas Não para o Bolso

Apesar de uma safra de café recorde ser esperada para este ano, os consumidores podem não sentir uma queda nos preços no curto prazo. Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam para uma produção de 66,2 milhões de sacas beneficiadas, superando o recorde anterior de 2020 e representando um aumento significativo em relação ao ciclo de 2025. No entanto, a recuperação dos estoques globais e os impactos climáticos recentes limitam a expectativa de preços mais acessíveis.

Após dois anos de oferta restrita, os estoques mundiais de café estão em níveis baixos, necessitando de um esforço contínuo para serem recompostos. O economista Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, explica que, embora uma acomodação nos preços seja esperada, eles devem permanecer em patamares elevados. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) revelam uma queda de 36,9% nos estoques globais entre 2021 e 2023, de 31,9 milhões para 20,1 milhões de sacas de 60 kg.

A cafeicultura brasileira enfrentou uma crise severa entre 2021 e 2022, marcada pela menor safra histórica devido à estiagem. Em 2024, a falta de chuvas durante o desenvolvimento das lavouras também elevou os custos de produção, com produtores investindo mais em manutenção e combate a pragas, favorecidas por temperaturas mais altas. Adversidades climáticas em importantes países produtores, como Vietnã, Colômbia e Indonésia, também contribuíram para a redução da oferta global do grão.

Impactos Climáticos e Ciclos de Produção Elevam o Preço do Café

O café é particularmente sensível às variações de temperatura, e o clima tem um impacto prolongado em sua oferta. Diferentemente de outras commodities, o aumento da produção de café não é rápido; novos plantios levam de três a cinco anos para atingir sua capacidade produtiva máxima. Esse ciclo longo significa que os efeitos das adversidades climáticas sobre a oferta tendem a se estender por alguns anos, dificultando a rápida normalização dos preços.

Enquanto a oferta enfrenta desafios, a demanda global por café continua em expansão, impulsionada pelo crescimento do mercado asiático e pela popularização de cafés especiais. O preço do café no mercado brasileiro, embora influenciado por fatores como câmbio, impostos e logística, acompanha a cotação internacional. Serigati ressalta que uma única safra recorde não é suficiente para regularizar a situação, sendo necessárias pelo menos duas safras boas consecutivas para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda e retornar os preços a níveis anteriores.

Café Acumula Alta de Mais de 200% Desde 2020 no Brasil

O impacto no orçamento das famílias brasileiras é notório. O preço do café moído acumulou uma alta de 99,48% entre janeiro de 2024 e junho de 2025, segundo o IPCA do IBGE, antes de apresentar uma leve retração. Para o café solúvel, a alta acumulada no mesmo período foi de 36,56%, significativamente acima da inflação geral de 9,66% entre janeiro de 2024 e janeiro deste ano.

Considerada a segunda bebida mais consumida no Brasil, o café já vinha pesando no bolso dos consumidores há anos. De janeiro de 2020 a janeiro de 2024, o preço do produto no Brasil registrou um aumento de 219,6%, mais que triplicando seu valor em pouco mais de seis anos. Comparativamente, a inflação acumulada no mesmo período foi de 39,7%, indicando que o preço do café subiu 179,9% acima da inflação geral, evidenciando a pressão constante sobre o poder de compra das famílias.

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